top of page
Buscar

Violência e contra-ataque: O pontapé de Frantz Fanon em Paulo Freire



Este pequeno ensaio deriva de um texto-base para minha apresentação no
evento II Vozes Negras na Filosofia, realizado no 12 de abril (2023), no auditório
Marielle Franco do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. O título
da minha apresentação foi A contribuição de Frantz Fanon para a teoria da
opressão de Paulo Freire, tema de pesquisa do meu mestrado em Ciência Política,
sendo envolvida na subárea de história do pensamento político.

Minha pesquisa de mestrado, de muitas formas, se desdobra de uma
pesquisa anterior, feita durante a licenciatura em Filosofia. Quando fiz este estudo
comparado das teorias de superação do colonialismo de Guerreiro Ramos e Frantz
Fanon, não pude me dedicar quanto gostaria sobre o problema da violência.
Quando Guerreiro examinou o “significado sociológico da violência”, avaliou que a
violência foi e continua sendo “utilizada como instrumento de criação de excedentes
de produção”, através do seu uso na imposição da divisão e da exploração do
trabalho, “embora assumindo formas sutis” nas sociedades contemporâneas.

Em suas palavras, “onde quer que haja Estado, um quantum de violência é
inevitável e necessário. [...] O Estado é justamente a agência da sociedade que
monopoliza o emprego da violência, a qual, no curso da evolução, não tem
desaparecido, mas mudado de natureza, ou vem-se apresentando de forma cada
vez menos elementar” (em O problema nacional do Brasil, de 1960). A partir daí,
sua reflexão sobre a violência não se aprofundou. Ele apenas opôs uma
transformação gradual de formas mais elementares de violência, de um lado, à
combinação racional dos fatores de produção, de outro, sendo esta última o modo
de formação de excedentes supostamente predominante nas sociedades industriais.

Alberto Guerreiro Ramos foi uma referência muito importante para a
formação do pensamento de Paulo Freire, assim como outros intelectuais do ISEB
(Instituto Superior de Estudos Brasileiros). Ele foi um sociólogo baiano, nacionalista,
com relativo destaque na intelectualidade dos anos 50, depois exilado pela ditadura
militar. De todo modo, Paulo Freire se distanciou das suas raízes isebianas,
reformistas, nacional-desenvolvimentistas, ao longo do seu exílio. Nesse processo,
se aproximou de referências anticoloniais e socialistas, como Marx, Rosa
Luxemburgo, Mao Tsé-Tung, Che Guevara, Fanon.

Os Rumos da Violência

Perceba, o problema ético e político da violência é estudado e debatido há

muitos e muitos anos e até hoje rende debate no século XXI com novas publicações
discutindo a respeito. Na minha pesquisa, estou localizando historicamente o
problema no contexto do Terceiro Mundo das décadas de 1960 e 1970, no qual os
autores escreveram seus textos.

A relação entre os dois livros principais da pesquisa, os Condenados da Terra
(1961) de Fanon e a Pedagogia do Oprimido (1968) de Freire, está estabelecida tão
logo este segundo foi publicado, quase uma década depois do primeiro. A primeira
edição italiana da Pedagogia, de 1971, vinha escrito na capa: “Do Terceiro Mundo, o
livro mais importante depois dos Condenados da Terra”. Os dois livros foram muito
importantes tanto para o contexto terceiro-mundista Africano e Latino-Americano,
quanto para as lutas na Europa contra o nazifascismo e as lutas socialistas,
anti-imperialistas e antirracistas nos Estados Unidos.

Fiquei surpreso quando descobri que Freire, um intelectual muito mais
associado à alfabetização, à educação, ou mesmo conscientização em geral, do
que à defesa de uma legítima violência do oprimido, ao se apropriar de Fanon pela
primeira vez, em Educação como prática da liberdade (1967), o fez justamente, sim,
a partir do problema da conscientização, mas também o da violência.

Notem, é emblemático para ilustrar a disputa que temos, do legado de Paulo
Freire e interpretações pacifistas, o livro Sem ódio nem violência: – A perspectiva
da libertação segundo Paulo Freire, escrito por Simões Jorge e publicado em 1979.
Segundo Simões Jorge, um intelectual católico, a teoria pedagógica de Paulo Freire
é que apenas o diálogo, o verbo criador, a palavra, liberta, jamais a violência.

Por essas e outras, fiz um projeto de pesquisa com a pergunta de partida:
Qual é a contribuição de Frantz Fanon para Paulo Freire? É possível identificar uma
contribuição específica para o processo de transformação do pensamento de
Freire? A rigor, quem são os oprimidos? E os opressores? Ainda faz sentido falar
em “violência do oprimido”? Afinal, o que é violência? O que a história da filosofia,
do pensamento político, tem a nos dizer sobre isso?

Para tratar do problema da violência em Paulo Freire, trago a citação do autor
em sua Educação como prática da liberdade, feita em uma nota de rodapé:

Quando o oprimido legitimamente se levanta contra o opressor, em quem
identifica a opressão, é a ele que se chama de violento, de bárbaro, de desumano,
de frio. É que, entre os incontáveis direitos que se admite a si, a consciência
dominadora tem mais este: o de definir a violência [...] A violência do oprimido,
ademais de ser mera resposta em que revela o intento de recuperar sua
humanidade, é, no fundo, ainda, a lição que recebeu do opressor. Com ele, desde
cedo, como salienta Fanon, é que o oprimido aprende a torturar.


Então, ao contrário do que querem acreditar as divulgações pacifistas do
pensamento freireano, o que encontramos nos seus textos é o reconhecimento de
Freire de que a “violência do oprimido” é legítima, porque ela busca a recuperação
da humanidade roubada pela violência do opressor.

Minha problematização aqui se concentra no seguinte questionamento, uma
frase de efeito conhecida, atribuída à Freire, que transformo em pergunta: As armas
do opressor não podem libertar o oprimido? Se fosse uma afirmação, “não, não
podem”, como devemos compreender essa tese, junto ao reconhecimento por parte
de Freire da legitimidade da violência do oprimido? O problema aqui é entender que
as “armas do opressor” se referem à violência do opressor. Será? Vamos primeiro
para a citação do Ernani Fiori no prefácio da Pedagogia. Ele disse o seguinte:

Em sociedades cuja dinâmica estrutural conduz à dominação de consciências, “a
pedagogia dominante é a pedagogia das classes dominantes”. Os métodos da
pressão não podem, contraditoriamente, servir à libertação do oprimido.

Ou seja, as armas ou métodos de opressão mencionados se referem à dominação da consciência. Depois, o próprio Freire explicou melhor:

Exatamente porque não podemos aceitar a concepção mecânica de consciência,
que a vê como algo vazio a ser enchido, um dos fundamentos implícitos na visão
“bancária” criticada, é que não podemos aceitar, também, que a ação libertadora se
sirva das mesmas armas da dominação, isto é, da propaganda, dos slogans.

Então, uma leitura do prefácio e do próprio livro obviamente revela que eles
estavam fazendo uma crítica à educação bancária, à sloganização, à reprodução da
educação para dominação, inclusive por parte de movimentos que se dizem
libertadores, mas apenas fazem depósitos de críticas, ao invés de se engajaram em
uma teoria e prática políticas realmente libertadoras. Portanto, justamente da
perspectiva de Freire, entender que “as armas do opressor não podem libertar o
oprimido” como uma tese pacifista atribuída ao autor é entrar em contradição com o
próprio pensamento freireano, reproduzindo um slogan, que, para usar jargão da
época, mistifica, aliena, engana, manipula.

O que encontramos em Prática da liberdade e no famoso Pedagogia do
oprimido é a associação entre violência e amor, na qual a resposta violenta do
oprimido contra a desumanização do opressor é um ato de amor que liberta tanto o
oprimido quanto o opressor, ao pôr fim à opressão e assim criar condições para o
surgimento de uma nova de humanidade. Trago agora uma citação de Cartas à
Guiné-Bissau (1977), onde Freire afirmou que:

Aí está uma diferença radical entre a violência dos opressores e a violência
dos oprimidos. A daqueles é exercida para preservar a violência, implícita na
exploração, na dominação. A dos últimos, para suprimir a violência, através da
transformação revolucionária da realidade que a possibilita.

Essa síntese feita pelo autor nos aponta para novas compreensões do
problema da violência e suas definições. Embora Fanon e Freire tenham utilizado as
expressões “violência do colonizado” e “violência do oprimido”, podemos questionar
se a mesma palavra, “violência”, serve para se referir a dois fenômenos de natureza
política e filosófica distinta. Em termos conceituais, é interessante, nos dizeres do
pixo “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”, que nele
está diferenciada, de um lado, a ideia de reação do oprimido e, de outro, aí sim, a
violência do opressor.

Ainda a partir das obras desses autores, há uma primeira simplificação de
diferenciações conceituais que se pode apontar. A violência (colonial ou vertical) dos
opressores, que sustenta as situações de opressão; a violência horizontal, conceito
utilizado por Freire na Pedagogia, em referência à Fanon, para nomear a violência
dos oprimidos contra outros oprimidos; e a contraviolência, um conceito de Fanon
que aparece poucas vezes no Condenados, para diferenciar a resposta do
colonizado, em sua legítima defesa, do horror da violência do regime colonial.

Quero, por fim, concluir com a ressalva de que, embora eu escolhi destacar o
problema da violência e as disputas que o envolve quando o assunto é a
apropriação de Fanon feita por Freire, entendo que um estudo aprofundado desses
autores mostra que nem Freire pode ser reduzido à um profeta da educação
pacifista, de que tudo se resolve pelo diálogo, mas sim um defensor da luta política, nem
Fanon pode ser reduzido à uma ênfase no problema da violência, discutido e
problematizado no primeiro capítulo do Condenados da Terra, onde debate outros
temas, como a própria necessidade de conscientização ou politização.

Sem conclusão


Li um primeiro poema
A audiência não captou a mensagem
Mudei a abordagem
Bati na mesa e gritei:

Não bata palma!
Você acabou de ser assaltado
Pela reação do colonizado
Contra as ideias engessadas e toda tetania muscular
Provocada pelos valores e estruturas ocidentais

Diante de vós,
O famoso rouba-brisa à mão armada,
A voz antes amarrada
Que não mais se submete ao seu projeto disciplinar

Na sua conscientização,
A pessoa quer ser ouvida
Um caso de rebelião da preta oprimida
Lutando para se libertar

 
 
 

Comentários


bottom of page