Violência e contra-ataque: O pontapé de Frantz Fanon em Paulo FreireJosé Victor Alves5 de out. de 20236 min de leituraEste pequeno ensaio deriva de um texto-base para minha apresentação noevento II Vozes Negras na Filosofia, realizado no 12 de abril (2023), no auditórioMarielle Franco do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. O títuloda minha apresentação foi A contribuição de Frantz Fanon para a teoria daopressão de Paulo Freire, tema de pesquisa do meu mestrado em Ciência Política,sendo envolvida na subárea de história do pensamento político.Minha pesquisa de mestrado, de muitas formas, se desdobra de umapesquisa anterior, feita durante a licenciatura em Filosofia. Quando fiz este estudocomparado das teorias de superação do colonialismo de Guerreiro Ramos e FrantzFanon, não pude me dedicar quanto gostaria sobre o problema da violência.Quando Guerreiro examinou o “significado sociológico da violência”, avaliou que aviolência foi e continua sendo “utilizada como instrumento de criação de excedentesde produção”, através do seu uso na imposição da divisão e da exploração dotrabalho, “embora assumindo formas sutis” nas sociedades contemporâneas.Em suas palavras, “onde quer que haja Estado, um quantum de violência éinevitável e necessário. [...] O Estado é justamente a agência da sociedade quemonopoliza o emprego da violência, a qual, no curso da evolução, não temdesaparecido, mas mudado de natureza, ou vem-se apresentando de forma cadavez menos elementar” (em O problema nacional do Brasil, de 1960). A partir daí,sua reflexão sobre a violência não se aprofundou. Ele apenas opôs umatransformação gradual de formas mais elementares de violência, de um lado, àcombinação racional dos fatores de produção, de outro, sendo esta última o modode formação de excedentes supostamente predominante nas sociedades industriais.Alberto Guerreiro Ramos foi uma referência muito importante para aformação do pensamento de Paulo Freire, assim como outros intelectuais do ISEB(Instituto Superior de Estudos Brasileiros). Ele foi um sociólogo baiano, nacionalista,com relativo destaque na intelectualidade dos anos 50, depois exilado pela ditaduramilitar. De todo modo, Paulo Freire se distanciou das suas raízes isebianas,reformistas, nacional-desenvolvimentistas, ao longo do seu exílio. Nesse processo,se aproximou de referências anticoloniais e socialistas, como Marx, RosaLuxemburgo, Mao Tsé-Tung, Che Guevara, Fanon.Os Rumos da ViolênciaPerceba, o problema ético e político da violência é estudado e debatido hámuitos e muitos anos e até hoje rende debate no século XXI com novas publicaçõesdiscutindo a respeito. Na minha pesquisa, estou localizando historicamente oproblema no contexto do Terceiro Mundo das décadas de 1960 e 1970, no qual osautores escreveram seus textos.A relação entre os dois livros principais da pesquisa, os Condenados da Terra(1961) de Fanon e a Pedagogia do Oprimido (1968) de Freire, está estabelecida tãologo este segundo foi publicado, quase uma década depois do primeiro. A primeiraedição italiana da Pedagogia, de 1971, vinha escrito na capa: “Do Terceiro Mundo, olivro mais importante depois dos Condenados da Terra”. Os dois livros foram muitoimportantes tanto para o contexto terceiro-mundista Africano e Latino-Americano,quanto para as lutas na Europa contra o nazifascismo e as lutas socialistas,anti-imperialistas e antirracistas nos Estados Unidos.Fiquei surpreso quando descobri que Freire, um intelectual muito maisassociado à alfabetização, à educação, ou mesmo conscientização em geral, doque à defesa de uma legítima violência do oprimido, ao se apropriar de Fanon pelaprimeira vez, em Educação como prática da liberdade (1967), o fez justamente, sim,a partir do problema da conscientização, mas também o da violência.Notem, é emblemático para ilustrar a disputa que temos, do legado de PauloFreire e interpretações pacifistas, o livro Sem ódio nem violência: – A perspectivada libertação segundo Paulo Freire, escrito por Simões Jorge e publicado em 1979.Segundo Simões Jorge, um intelectual católico, a teoria pedagógica de Paulo Freireé que apenas o diálogo, o verbo criador, a palavra, liberta, jamais a violência.Por essas e outras, fiz um projeto de pesquisa com a pergunta de partida:Qual é a contribuição de Frantz Fanon para Paulo Freire? É possível identificar umacontribuição específica para o processo de transformação do pensamento deFreire? A rigor, quem são os oprimidos? E os opressores? Ainda faz sentido falarem “violência do oprimido”? Afinal, o que é violência? O que a história da filosofia,do pensamento político, tem a nos dizer sobre isso?Para tratar do problema da violência em Paulo Freire, trago a citação do autorem sua Educação como prática da liberdade, feita em uma nota de rodapé:Quando o oprimido legitimamente se levanta contra o opressor, em quemidentifica a opressão, é a ele que se chama de violento, de bárbaro, de desumano,de frio. É que, entre os incontáveis direitos que se admite a si, a consciênciadominadora tem mais este: o de definir a violência [...] A violência do oprimido,ademais de ser mera resposta em que revela o intento de recuperar suahumanidade, é, no fundo, ainda, a lição que recebeu do opressor. Com ele, desdecedo, como salienta Fanon, é que o oprimido aprende a torturar.Então, ao contrário do que querem acreditar as divulgações pacifistas dopensamento freireano, o que encontramos nos seus textos é o reconhecimento deFreire de que a “violência do oprimido” é legítima, porque ela busca a recuperaçãoda humanidade roubada pela violência do opressor.Minha problematização aqui se concentra no seguinte questionamento, umafrase de efeito conhecida, atribuída à Freire, que transformo em pergunta: As armasdo opressor não podem libertar o oprimido? Se fosse uma afirmação, “não, nãopodem”, como devemos compreender essa tese, junto ao reconhecimento por partede Freire da legitimidade da violência do oprimido? O problema aqui é entender queas “armas do opressor” se referem à violência do opressor. Será? Vamos primeiropara a citação do Ernani Fiori no prefácio da Pedagogia. Ele disse o seguinte:Em sociedades cuja dinâmica estrutural conduz à dominação de consciências, “apedagogia dominante é a pedagogia das classes dominantes”. Os métodos dapressão não podem, contraditoriamente, servir à libertação do oprimido.Ou seja, as armas ou métodos de opressão mencionados se referem à dominação da consciência. Depois, o próprio Freire explicou melhor:Exatamente porque não podemos aceitar a concepção mecânica de consciência,que a vê como algo vazio a ser enchido, um dos fundamentos implícitos na visão“bancária” criticada, é que não podemos aceitar, também, que a ação libertadora sesirva das mesmas armas da dominação, isto é, da propaganda, dos slogans.Então, uma leitura do prefácio e do próprio livro obviamente revela que elesestavam fazendo uma crítica à educação bancária, à sloganização, à reprodução daeducação para dominação, inclusive por parte de movimentos que se dizemlibertadores, mas apenas fazem depósitos de críticas, ao invés de se engajaram emuma teoria e prática políticas realmente libertadoras. Portanto, justamente daperspectiva de Freire, entender que “as armas do opressor não podem libertar ooprimido” como uma tese pacifista atribuída ao autor é entrar em contradição com opróprio pensamento freireano, reproduzindo um slogan, que, para usar jargão daépoca, mistifica, aliena, engana, manipula.O que encontramos em Prática da liberdade e no famoso Pedagogia dooprimido é a associação entre violência e amor, na qual a resposta violenta dooprimido contra a desumanização do opressor é um ato de amor que liberta tanto ooprimido quanto o opressor, ao pôr fim à opressão e assim criar condições para osurgimento de uma nova de humanidade. Trago agora uma citação de Cartas àGuiné-Bissau (1977), onde Freire afirmou que:Aí está uma diferença radical entre a violência dos opressores e a violênciados oprimidos. A daqueles é exercida para preservar a violência, implícita naexploração, na dominação. A dos últimos, para suprimir a violência, através datransformação revolucionária da realidade que a possibilita.Essa síntese feita pelo autor nos aponta para novas compreensões doproblema da violência e suas definições. Embora Fanon e Freire tenham utilizado asexpressões “violência do colonizado” e “violência do oprimido”, podemos questionarse a mesma palavra, “violência”, serve para se referir a dois fenômenos de naturezapolítica e filosófica distinta. Em termos conceituais, é interessante, nos dizeres dopixo “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”, que neleestá diferenciada, de um lado, a ideia de reação do oprimido e, de outro, aí sim, aviolência do opressor.Ainda a partir das obras desses autores, há uma primeira simplificação dediferenciações conceituais que se pode apontar. A violência (colonial ou vertical) dosopressores, que sustenta as situações de opressão; a violência horizontal, conceitoutilizado por Freire na Pedagogia, em referência à Fanon, para nomear a violênciados oprimidos contra outros oprimidos; e a contraviolência, um conceito de Fanonque aparece poucas vezes no Condenados, para diferenciar a resposta docolonizado, em sua legítima defesa, do horror da violência do regime colonial.Quero, por fim, concluir com a ressalva de que, embora eu escolhi destacar oproblema da violência e as disputas que o envolve quando o assunto é aapropriação de Fanon feita por Freire, entendo que um estudo aprofundado dessesautores mostra que nem Freire pode ser reduzido à um profeta da educaçãopacifista, de que tudo se resolve pelo diálogo, mas sim um defensor da luta política, nemFanon pode ser reduzido à uma ênfase no problema da violência, discutido eproblematizado no primeiro capítulo do Condenados da Terra, onde debate outrostemas, como a própria necessidade de conscientização ou politização.Sem conclusãoLi um primeiro poemaA audiência não captou a mensagemMudei a abordagemBati na mesa e gritei:Não bata palma!Você acabou de ser assaltadoPela reação do colonizadoContra as ideias engessadas e toda tetania muscularProvocada pelos valores e estruturas ocidentaisDiante de vós,O famoso rouba-brisa à mão armada,A voz antes amarradaQue não mais se submete ao seu projeto disciplinarNa sua conscientização,A pessoa quer ser ouvidaUm caso de rebelião da preta oprimidaLutando para se libertar
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