A língua portuguesa tem suas bases no latim, que faz parte das línguas indo-europeias. Originalmente língua de um povo que habitava o centro da Itália, os lácios, esta língua desempenhou papel importante na história da civilização ocidental, devido ao êxito imperialista da sociedade que a utilizava: a sociedade romana. No século III antes de Cristo os romanos iniciaram uma expansão de conquista secular, que os levou a imperar, no século II depois de Cristo, por vastos territórios: da Lusitânia à Mesopotâmia e do Norte da África à Grã-Bretanha.
Os romanos levavam para as regiões conquistadas a sua cultura: sua língua, seus hábitos, instituições e padrões culturais. Já no século I a.C. o latim era uma língua escrita, mas esse latim era uma “língua literária”, praticada por poucas pessoas, enquanto havia o latim corrente, de uso comum, por parte dos mais variados grupos sociais, que não tinha a mesma uniformidade do latim escrito e era denominado latim vulgar. Esse matizado latim vulgar, sob o influxo de múltiplos fatores e assimilações culturais, diversificou-se com o tempo nas chamadas línguas românicas.
O latim incorporado pelos diferentes povos em diferentes geografias foi, obviamente, se diversificando com o passar do tempo, de modo que no século III depois de Cristo já não havia uma unidade linguística no Império e no fim do século V os falares regionais já estavam mais próximos dos idiomas românicos que do latim. No século IX começam a surgir os primeiros textos redigidos nas línguas românicas: francês (séc. IX), espanhol e italiano (séc. X), sardo (séc. XI), português, provençal e rético (séc. XII), catalão e franco-provençal (séc. XIII), dálmata e romeno (séc. XIV).
Foi no século III a.C. que os romanos invadiram a Península Ibérica (ou Hispânia) e conquistaram-na completamente no século I a.C. Ali habitavam, dentre outros povos, celtas, iberos, púnico-fenícios e lígures. A influência das línguas desses povos na língua portuguesa se limita aos sufixos arra, orro, asco e ego, e às palavras arroio, balsa, barro, carrasco, gordo, lama, lança, lousa e manteiga.
No ano de 409 d.C. a Hispânia foi invadida por povos germânicos, entre eles os vândalos e os suevos. Os vândalos se fixaram na Bética, mas em 429 foram para a África, onde fundaram um reino que durou cem anos; os suevos se estabeleceram na Galícia, na Lusitânia e acabaram sendo assimilados (ou se assimilando) aos visigodos, povo germânico que mantinha antigos contatos com a civilização romana e estava estabelecido na Galícia. Ocupou, depois, toda a Península Ibérica, até a invasão Árabe do ano 711.
Os visigodos e os povos românicos foram fundindo-se culturalmente, de modo que em 654 foi promulgada uma nova lei que não mais distinguia os direitos das comunidades de godos e de hispanos. Havia ali uma unidade cultural romana-visigótica cuja língua era o hispano-românico. A contribuição dos visigodos para a língua portuguesa está expressa, dentre outras, nas seguintes palavras:
- Palavras visigodas que já pertenciam ao latim vulgar:
Depois de conquistar territórios na África, os árabes muçulmanos invadiram a cristã Península Ibérica, junto à sírios e berberes. As influências recíprocas entre o hispano-românico e as línguas árabes com o passar do tempo gerarão o moçárabe. Os árabes trouxeram com eles inovações na agricultura, na indústria e no comércio, portanto numerosas palavras hoje da língua portuguesa foram introduzidas no hispano-românico por representarem novos conhecimentos (ou imposições) culturais. Algumas delas são:
Também, algumas palavras gregas, se incorporaram ao português por comunicação árabe: alambique, alfândega, alcaparra, alquimia, arroz.
Durante o domínio árabe o impulso de diversificação das línguas românicas ganhou fôlego. O galego-português, cujos contornos parecem ter começado a se definir no século VI, consolida-se, e já no século IX tem sua existência documentada em textos oficiais, característicos dessa época de transição do latim para o português, onde aparecem numerosas corruptelas do latim junto a construções linguísticas distintamente galego-portuguesas. No século XII já surgem textos inteiramente escritos em língua distintamente portuguesa, como este testamento do ano 1193, escrito em português arcaico:
In Christi nomine. Amen. Eu, Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás
virtudes de Sam Saluador do moensteyro de Vayram, e offeyro co’ no
meu corpo todo o herdamento que eu ey em Centegãus e as três
quartas do padroadigo d’essa eygleyga e todo hu herdamento de
Crexemil, assi us das sestas como todo u outro herdamento; que u aia
u moensteyro de Vayram por en saecula saeculorum. Amen
Em nome de Cristo. Amém. Eu, Elvira Sanches ofereço meu corpo às
virtudes do São Salvador do mosteiro de Vayram, e ofereço com o
meu corpo toda a herança que tenho em Centegãus e as três
quartas do padroado desta igreja e toda a herança de
Crexemil, assim as das cestas como toda outra herança: que a haja
o mosteiro de Vayran por séculos e séculos.
O árabe e sua contribuição à língua portuguesa
Os árabes iniciaram a conquista da Hispânia em 711 d.C. No ano 713, a Lusitânia e a Galícia estavam sob domínio mouro. Em sete anos conquistaram toda a Península, com exceção das montanhas ao norte. O domínio árabe foi particularmente intenso no sul da Lusitânia e durou quase cinco séculos. A Reconquista latina se iniciou no norte. Porto foi retomada no ano 1.000, Coimbra em 1.064, Lisboa em 1.147. Ao cair Faro, no Algarve, em mãos cristãs no ano 1.249, terminou a era do predomínio árabe em Portugal. Dado o domínio multissecular dos árabes, a língua portuguesa recebeu uma influência enorme. Existem muitas palavras derivadas do árabe na língua portuguesa. Alguns exemplos, além dos já mencionados, são:
A história da língua portuguesa está inexoravelmente ligada às navegações portuguesas dos séculos quinze e dezesseis. Sua invasão do que hoje é o Brasil foi um momento chave para a expansão da língua portuguesa: Brasil é hoje o principal país lusófono. A presença dos portugueses mundo afora deixou, por sua vez, contribuições à língua portuguesa.
Do Oriente provém, entre outras, as seguintes palavras, várias das quais passaram também à outras línguas:
Índia: bengala, andor, pagode, chita, lacre.
Pérsia: xale, laranja, xadrez, azul.
China: chá, mandarim, nanquim.
Japão: biombo, leque, quimono.
Malásia: canja.
Devido à imigração e à ampliação do contato entre territórios distantes, o que ao longo da história tem se intensificado; devido às trocas culturais entre a língua portuguesa e outras línguas, seja pela incorporação natural ou pela imposição cultural, provém, dentre muitas outras, estas palavras:
A língua portuguesa do Brasil, isto é, a língua brasileira, enriqueceu e tem enriquecido de maneira importante o vocabulário da língua portuguesa, principalmente pela dupla influência das línguas indígenas do Brasil, como o tupi-guarani, e das línguas africanas faladas pelos numerosos escravizados forçados a virem ao Brasil, como o quimbundo (Angola).
As palavras derivadas de uma língua para a outra representam a influência incisiva de uma cultura em sua relação com outra cultura, processo histórico-social de trocas recíprocas (igualitárias ou opressivas) que se solidifica plenamente, na linguagem, durante o processo assimilativo ou após a assimilação, não da palavra, mas do processo histórico junto a ela engendrado, pelos falantes da língua. Isto é, a palavra é um reflexo do processo de transformação ou manutenção social ocorrido pela troca cultural entre os indivíduos, coletividades e instituições de matrizes culturais distintas, portanto a permanência destas palavras denota a permanência de práticas culturais, historicamente incorporadas ao seio da cultura popular. Na culinária, na arte, na agricultura, no esporte, na tecnologia.
REFERÊNCIAS
Gramática da Língua Portuguesa – Celso Ferreira da Cunha. 1975, Rio de Janeiro: MEC e FENAME.
Cinco mil anos de palavras: comentários sobre a origem, evolução, morte e ressureição de algumas línguas – Carlos Prieto. 2007, México; FCE.
Roteiro Literário de Portugal e do Brasil – Aurélio Buarque de Hollanda e outro. 1966. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa – Francisco Silveira Bueno. 1968, São Paulo: Edição Saraiva.
Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa – Antônio Geraldo da Cunha. 2010, Rio de Janeiro: Lexicon:
Comentários