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O que é Translinguismo?

É possível que a maioria das pessoas tenham já entrado em contato com conceitos como ‘língua’ e ‘trans’. No entanto, pode parecer, em um primeiro momento, estranha a junção dessas duas ideias – afinal de contas o ‘trans’, uma partícula normalmente utilizada como prefixo , tem sido cada vez mais utilizado de maneira “solitária”, sem precisar de complementos, e normalmente serve para fazer referência a ‘transgênero’, ‘transex’, ‘transexualidade’, enfim, ideias assim. Isso porque o corpo e as questões de gênero e sexualidade são emergentes e, dessa maneira, postas em pauta com mais frequência, em mais espaços etc. Ao contrário, ‘translinguismo’ é um termo mais incomum, não é a primeira associação que as pessoas farão ao ler ‘trans’.
Apesar de ‘língua’ ser um termo comum, todos sabermos a língua oficial de nossos territórios (que normalmente é apenas uma, mas pode não ser) – a falarmos, a escrevermos, a ouvirmos, a lermos – fato é que pouco reflitamos, no cotidiano, na vida prática, sobre as questões das línguas: as questões políticas que atravessam/são pelas línguas atravessadas, as relações de poder pelas línguas implicadas e até mesmo o fato de que as línguas carregam consigo cosmologias, noções de mundo (de tempo, de espaço, de sociedade).
Apenas quando entrei no curso de Letras comecei a refletir sobre a importância de estarmos atentes aos contextos para que pudéssemos nos comunicar melhor. Em prática: Entendendo os variados contextos em que estamos inserides e o quão cada contexto pede de nós formas distintas de perfomance podemos compreender melhor como nos posicionarmos – também linguisticamente – para que consigamos alcançar os objetivos pretendidos nesses diversos contextos.
Quando entrei no curso de Letras foi quando comecei a refletir sobre o fato de que tudo o que falamos, nossos discursos, são políticos, ideológicos – há pessoas, analistas do discurso, que se aprofundam em refletir sobre, digamos um caso, o quão a escolha de uma palavra ou a ausência de uma palavra são atitudes linguísticas que podem revelar intenções que, para quem não estiver atente, pode parecer “nada demais”... Enfim, foram e são muitas e muitas novidades, noções e discussões, que não caberiam aqui. Principalmente porque a ideia deste texto não é ser uma panaceia.
Há bastante textos sobre linguística, análise do discurso, etc, por exemplo o introdutório O que é linguística (publicado em 2017 na coleção Primeiros Passos), de Eni Puccinelli Orlandi. Onde a autora traça um panorama geral da linguística enquanto disciplina de estudo; ou mesmo Marxismo e filosofia da linguagem (primeira edição em 1929), quando Mikhail Bakhtin afirma ser todo signo ideológico. Cito esses dois enquanto referências a um primeiro mergulho mais interessado nas questões das línguas, também porque ambas as obras podem ser baixadas (em suas edições mais atualizadas) em PDF e gratuitamente (viva o anarquismo que possibilita a democratização de conteúdos!). Mas há muitos outros, mais curtos até, igualmente de fácil acesso, como artigos científicos, que podem ser encontrados em sites de busca se colocamos ‘linguística’ como palavra-chave (isso acredito que já sabemos, então façamos, nos atualizemos, pratiquemos a autonomia).
Ainda que de maneira breve, como foi feito, é preciso mencionar esse potencial político das línguas para que possamos chegar ao ‘translinguismo’ – isso porque, obviamente, o translinguismo é também uma questão política. Não só pelo fato da língua por si só ser ideologia, mas também (ou ainda) por ser a língua um importante fator à construção das comunidades nacionais: vide a imposição linguística dos colonos europeus perante as línguas indígenas e afrikanas, só para citar um exemplo fundamental de ser pensado ao falarmos de línguas.
Bom, feito o que foi feito, portanto, para seguirmos de maneira simples e objetiva ao ponto, poderemos já, acredito, compreender do translinguismo suas noções gerais, ou seja, o que esse termo pode vir a significar – para, depois disso, entendermos a importância dele para as discussões contemporâneas no que diz respeito às questões dos mundos enquanto considerações finais.

Noções gerais e exemplos
Vale sempre investigar, como os arqueólogos, os rastros, as origens – neste nosso caso, vamos à origem de uma palavra/partícula essencial à discussão: O prefixo ‘trans’. Do latim, ‘trans’ significa ‘além’, ‘através’. Ou seja, todo termo que se enrosque ao prefixo ‘trans’ será automaticamente por ele transformado: não é diferente com as línguas. Isto significa dizer que ‘translinguismo’ é a definição que podemos dar ao encontro entre duas ou mais línguas, um encontro que é muito mais mistura, de modo a deixarem esmaecidas as fronteiras que antes as separavam. Dito de outra maneira: é o trânsito entre línguas, o movimento da própria vida a interferir nos limites das línguas.
Uma comunicação ‘translíngue’ é aquela que está para além do limite de uma língua. Exemplificando: ocorre muito nas relações latino-americanas o portunhol. De cara, podemos dizer, pois, que o portunhol é a mistura entre o português e o espanhol – principalmente o português brasileiro ou, como apontou Lélia Gonzales, o pretoguês. O portunhol ocorre principalmente nos limites do Brasil e outros países hispanofalantes: nas fronteiras, ficções territoriais coloniais, muito mais lugar de contato do que de exclusão; apesar das violências ocorridas pelo militarismo nas fronteiras presentes ou apesar do descaso com as vidas preteridas pelas demarcações – o portunhol, assim como o espanglês (a mistura entre o espanhol e o inglês), existe. Daí poderíamos vir a refletir as contaminações também das línguas indígenas neste nosso pretoguês-brasileiro: as contaminações, fecundas, fazem nascer os translinguismos.
Para não perder o fio da meada, voltemos ao caso do portunhol, exemplo ao qual vamos nos deter aqui: Visto pela gramática tradicional do ‘português’ e ‘espanhol’ (ou seja, visto pela gramática colonial) como erro, o portunhol é uma expressão translíngue: sem prescrições, limites, sem uma gramática própria, específica – ou seja, sem ser uma língua – o portunhol existe e reexiste. Existe na boca das pessoas e na escrita das pessoas que, normalmente, não têm o domínio (talvez para lembrar que não precisamos dominar nada, muito mais dançar ou cantar, como no?) da língua do outro. Os lusófonos (os que falam português) e os hispanofalantes (os que falam espanhol), para se comunicarem entre si (quando entram em contato sem o domínio da língua do outro) se veem na necessidade de, a partir das noções que têm de cada uma dessas, tentar efetivar a comunicação. O que acontece é que há uma mistura viva, improvisada, entre as gramáticas, o que não resulta em novas gramáticas prescritivas, mas resulta em comunicação.
É importante ter a noção de que, apesar de podermos identificar certa recorrência, por exemplo, na América Latina, do portunhol, não podemos associar o portunhol a nenhum território – como acontece com as línguas, tomadas como ‘línguas oficiais’ das comunidades nacionais. Isso porque o portunhol, assim como outras expressões translíngues, é desterritorializado. Ou seja, a própria potência de vida translíngue seria tolhida caso a aprisionássemos a determinado território. Nesse sentido, o translinguismo é uma desestabilização não só da língua, antes fechada em si, como também da nação. Isto é, a prática translíngue está implicada na transnacionalidade, na transfronteira, na transcultura – e daí podemos (ou devemos) chegar, inclusive, às questões de raça, gênero e sexualidade.

Referências translíngues ou translinguismo na prática
Há pouco referencial teórico que defina objetivamente o que é translinguismo (diferentemente de termos próximos, como ‘transculturação’ e ‘transdisciplinaridade’). Os fenômenos translíngues, isso sim, muito mais trabalhos são: textos translíngues são analisados e a partir disso surge a questão do translinguismo (mas não só, uma vez que os textos tem diversos vasos aos quais podemos nos dirigir para acessá-los). A grande maioria dessas análises, senão todas (o que não arrisco dizer), foram feitas após os anos 2000: a discussão é recente, quero dizer.
Dessa forma, entre esses trabalhos analíticos, destaco o que pra mim foi uma primeira referência de leitura no que diz respeito ao ‘translinguismo’: Translinguismo e poéticas do contemporâneo (Org.: Maria Lisboa de Mello e Antonio Andrade, 2019) – em que estão reunidos artigos/ensaios de autores contemporâneos a tensionar da perspectiva ‘trans’ certas textualidades (de modo bem geral); como também destaco, dessa vez não um trabalho analítico, muito mais um trabalho a ilustrar bem o translinguismo nas fronteiras brasileiras, o documentário Portunhol (2020), dirigido por Thais Fernandes – o qual tornaria quase dispensável a leitura de todo este texto que escrevo. Recomenda-se, ainda, buscar possíveis atualizações sobre o assunto.
Agora vamos a algumas experimentações translíngues que podemos retomar aqui para ilustrar o translinguismo, para que aqui seja possível perceber o translinguismo na prática – ou seja, vamos a um momento que será inclusive mais breve do que poderia, justamente porque vamos nos deter a, superficialmente, tocarmos nos textos: deixando apenas evidente a questão translíngue neles presentes.
Caberá, pois, a você, leitore, além de notar o translinguismo, fazer a análise crítica no que diz respeito às questões sociais também presentes nos textos. De antemão, digo que vamos observar dois textos que podem ser considerados literários – no que também não vamos nos posicionar aqui, tendo em vista a potência do texto para além da discussão binária ‘ficção’ x ‘realidade’, pensando-os portanto da perspectiva da realidadeficção, tensão pela ambivalência, proposta por Josefina Ludmer.
Finalmente, apontaremos na sequência nossos exemplos – que, sem dúvidas, carregam consigo uma escolha ideológica de quem vos escreve. Nos dois casos citados ocorre o translinguismo: muito mais que erro, aquele truque, a arranhada, um afecto, um desejo, a vertigem, o mar: e nós com ele, presas e caçadores.

Exemplo 1 – Neca + 20 poemetos travessos, Amara Moira:

Eu nem penei tanto, acho, acho que só fui indo, ouvindo, falando aqui um pouco, um pouco outro ali, igual quando eu tava em Madri e tinha que dar o truque no castelhano, "soy brasileña, cariño... te gusta?,,. Las mariconas se quedavan doidas com a gente. […] Depois vem se arreganhando pra cima de mim, querendo pôr sem, ver se eu deixava entrar, a maricona toda desentendida, "quês que cê? quês que cê?"... senhor, como eu odeio essas trucosas malditas! Viu? Eu arranho um françoá vez ou outra, sivuplê é obrigada, não, não, obrigada é merci, e merci bocu grazie mille, tá, meu bem! Aí como anda le vi, quase igual português, je tâm, bom, je tâm tutti lo sanno, trê biâm, bonsuá, zé fini. Sivuplê ho dimenticato, mi scusi. Te digo assim que lembrar. Tudo o que aprendi foi na rua, igual o bajubá.


Exemplo 2 – Mar Paraguayo, Wilson Bueno:

Un aviso: el guarani es tan essencial en nesto relato quanto el vuelo del párraro, lo cisco en la ventana, los arrulhos del português ô los derramados nerudas en cascata num solo só suicídio de palabras anchas. Una el error dela outra. Queriendo-me talvez acabe aspirando, en neste zoo de signos, a la urdidura essencial del afecto que se vá en la cola del escorpión. Isto: yo desearia alcançar todo que vibre e tine abaixo, mucho abaixo de la línea del silêncio. No hay idiomas aí. Solo la vertigem de la linguagem. Deja-me que exista. E por esto cantarê de oído por las playas de Guaratuba mi canción marafa, la defendida del viejo, arrastando-se por la casa como uno ser pálido y sin estufas, sofriendo el viejo hecho asi un mal necessário – sin nunca matarlo no obstante los esfuerzos de alcançar vencer a noches y dias de pura sevícia en la obsessión macabra de enganar-lhe carne pisada del pescoço. No, cream-me, hablo honesto y fundo: yo no matê a el viejo. Y después há el niño con sus duros muslos cavalo - la fuerza inventada del hombre en sus ombros y en la carne ossessiva del sexo con que ossessivo me busca y caça: yo, su presa y caçador.


O translinguismo e as questões do mundo
Para concluir este texto que pretendeu refletir sobre o translinguismo, sabendo não ter dado conta de tão complexa discussão que leva a outras discussões tão complexas quanto esta – tendo a noção de que está contido nisto tudo uma potência de mudança, de transformação, de desestabilização das normas que são tantas – espera-se que minimamente tenha ficado aqui bem pontuado justamente este potencial do translinguismo: o de desestabilizar as noções de mundo, principalmente as raqueadas em nós pelo colonialismo.
É assim, pois, que está relacionado o translinguismo às questões do mundo: desde o prefixo, ‘trans’, o translinguismo vem potencializando discursos dissidentes. E quanto mais pratiquemos com coragem o translinguismo mais legitimaremos outras vozes, outras palavras, outros gestos, outras linguagens, outres nós.
Se pudesse expressar uma vontade viva enquanto este texto se gesta e entende a importância de pensar o translinguismo em perspectiva ampla (em diálogo com outras discussões, tais quais as faladas aqui explicitamente ou não, de gênero, raça, classe, gênero, corpo, espaço etc), é a vontade de que brote, mesmo que seja uma mínima (larva, germe, ovo) pulsão dissidente (na língua não apenas, em todo o ser,) em que lê.


originalmente publicado na revista Mangue Scientífico nº 1 - 02 / 2022




 
 
 

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