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SOBRE O LIVRO DE BOLSO

O tamanho que um livro tem influência diretamente na experiência estética que ele pode proporcionar à pessoa que o toca.
Sua forma, sua superfície material, deve se transcrever e estar transcrita pelo conteúdo imaterial que a compõe e a justifica.
Isto quer dizer que determinados tamanhos de livro se conjugam melhor com certos tipos de escrivinhação ou, melhor dizendo, de proposições livreiras, materializações espirituais. Claro que a disposição estética do espirito de quem medita sobre esta questão da FORMA e do conteúdo, e decide, em que medida, um pode se circunscrever, se transfundir no outro, é que definirá o que é que significa exatamente conjugar forma e conteúdo.
É por isto que não é possível definir exatamente regra ou lei e, portanto, infrutífero [e anacrônico] dizer por ex. que um romance contemporâneo tem de ser ou deve ser editado no formato 14x20, e com uma tipologia românica.

Isto é a dogmatização da tipografia.

Que é ciência, mas também arte. É trabalho da mente e do corpo, teoria entremeada na prática. É previsão e reformular.
A arte da tipografia é, no fim das contas, a arte de perpetuar.

Pensando na typographia enquanto arte mas também enquanto ciência empírica, uma ciência do fazer, ver e sentir, é essencial que ao editarmos livros exercitemos uma experimentação estética livre em equilíbrio com o estudo e o reconhecimento dos fundamentos e do desenvolvimento histórico dessa atividade humana.
Só assim poderemos criar coisas realmente novas no universo do livro, que não devem diminuir a eficiência de um livro em ser lido confortavelmente [como se apresenta a mancha textual, qual a fonte, o espacejamento, o entrelinhamento]
em ser manuseado e transportado facilmente [qual o tamanho, o peso e o formato do livro] Assim como nos ensinam as tipógrafas, tipógrafos, editoras, editores, impressoras e impressores do passado.
Um livro de bolso é o melhor livro para ser transportado e lido em qualquer lugar sem necessidade de muito esforço ou apoio, sendo mesmo possível lê-lo tranquilamente dentro de um ônibus em movimento, o que é muito mais difícil de se conseguir com um livro grande ou grosso demais. Ao editarmos e projetarmos um livro devemos ter em mente o conforto da pessoa que o encontrará.
O livro deve fazer a pessoa se sentir confortável, deve convidá-la, a partir da conjugação de todos seus elementos, a travar contato com esse objeto, a leva-lo para aqui ou para ali, lê-lo nesse lugar ou em outro. O livro precisa acolher.
Em minhas pesquisas e experimentações cheguei à conclusão de que o melhor formato para um livro de bolso é o 9,5x 14cm, assim o livro cabe em qualquer bolso mesmo (da calça, da bermuda, da camisa) e, se editado com tamanho de fonte e espacejamento correto, proporciona uma boa leitura.
A Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, que popularizou o livro de bolso no Brasil, não cabe lá em muitos bolsos. Seu formato: 11,5x16cm.
Aí está um bom exemplo do que significa buscar o novo e aprender com a tradição, simultaneamente. É necessário ter na mente e na alma o conceito de transcriação, o re-movimentar da criação gráfica. A Primeiros Passos é uma iniciativa editorial importantíssima para a história dos livros deste país, tendo publicado centenas de títulos sobre temáticas variadas, em formato de bolso. Entretanto, pensando na utilidade do livro de bolso, para além do significado que o livro contém e carrega, para além do preço de cada exemplar, o formato da coleção não é verdadeiramente um livro de se guardar no bolso.
Esse olhar integral para o livro, aqui brevemente delineado, essa liberdade de projeto e execução, hoje em dia, só é possível em um projeto editorial que desenvolva todas as etapas do processo produtivo do livro: a composição, a impressão e a manufatura, com verdadeira independência em relação aos modismos e às pressões financeiras do momento, principalmente sem depender de gráficas multimilionárias para trazer ao mundo suas publicações, e sempre estudando, praticando, cultivando e experimentando com o objeto livro.
 
 
 

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